Ontem perdi o currículo.

No Natal gastei um vale de presente do supermercado a comprar um disco externo só para guardar merdices pessoais. Andavam a mais no portátil. Não o gastei em arroz. Não o gastei em sardinhas. Não o gastei em cebolas. Não o gastei em merdas de supermercado. Não! Comprei um disco externo para ser um gajo organizado. Bom, ainda não chegámos ao Carnaval e eu já atingi o nirvana da organização. O despojamento é organização, não é?? Andaram anos no disco dos meus pcs. E nunca se perderam.

Algumas coisas fazem-me falta, outras nem por isso. Dei-lhe com um daqueles softwares milagrosos de recuperação de ficheiros e só me foram devolvidos mp3s – não é mau, que diabo! mas desses havia backup . Bom, pus-me a tentar refazer o currículo. Horas depois chego à conclusão de que não sou capaz.  Olá! Eu tenho trinta e cinco anos, caibo em três folhas A4 de curículo informal e em quatro de modelo europeu. Sei disso porque me lembro. Mas não me lembro de tudo o que lá estava. Parece que era muito, não é? E agora? Olhe, desculpe lá, por acaso nunca lhe enviei um currículo?

PS: chegou-me um por mail, esta manhã.

Puxam as calças para cima, coçam a genitália, pigarreiam, dizem sempre a mesma palavra, mexem no cabelo, põem a língua de fora como ajuda à minúcia. Topo sempre os tiques dos outros. E uma vez por outra, topo os meus.

Acabo de descobrir que numa situação de algum embaraço digo frequentemente “tipo”.

Assim como se precisasse tipo-de-um-bocadinho-de-qualquer coisa. Talvez de não estar tipo embaraçado. Não sei de onde me vem esse tipo de hábito.  Eu já não vejo séries tipo juvenis na tv. Já não tenho hormonas tipo suficientes para ter vontade disso. Será que preciso tipo de parecer um tipo cool?

Não só é gramaticalmente tipo um erro, como é uma palavra feia tipo nesse sentido.

Aos dois ou três leitores deste blog: se me ouvirem dizer alguma palavra tipo “tipo”, digam-me assim tipo qualquer coisa. Tipo bem-hajam.

goes space funk  nas horas livres mugy

- Isso não estava no projecto, senhor engenheiro, mas eu fiz para beneficiar a rua!

- Mas não está bem, senhor engenheiro.

- Ó senhor engenheiro, mas está melhor do que estava! Que isto estava uma miséria.

- Não está transitável, senhor engenheiro! Mais valia não ter feito nada!

- Desculpe senhor engenheiro mas eu ando nisto há 50 anos! Está transitável!

- Não está, senhor engenheiro!

- Ó senhor engenheiro, desculpe, mas eu ando nisto há cinquenta anos! E já fui do Ministério!

… aposto que era capaz de morder aquela máquina antes que o gajo desse por isso

um glockenspiel! que é muito mais cool do que dizer metalofone.

É a angústia do segundo álbum. Como a dos Stone Roses. Um gajo escreve uma cena definitiva e que lhe pesa uma tonelada e, para além da inutilidade do gesto, fica sem saber como voltar a escrever. Bom, faça-se de conta que ninguém viu.

no meu quintal há um piri-piri. e no piri-piri há um gafanhoto.

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Um gajo por mais crescido que seja vê-se sozinho em casa por dois dias e vêm-lhe logo ao de cima os genes de rufia. Um actimel vazio, uma casca de banana, chávenas e pratos usados, um cinzeiro meio vazio, dois iogurtes líquidos já esvaídos, restos de pão duro, pacotes de crackers meio gastos. Ontem a banca da minha cozinha, parecia um cenário do Armageddon.  E não há muitos dias disse (alto – houve quem o ouvisse) que ultimamente tenho preferido comer queijo de manhã porque a manteiga dá muito trabalho a barrar (eu compro o queijo já fatiado). Isto vindo de quem era capaz de passar horas a pensar na melhor maneira de fazer um molho holandês é no mínimo indicador de uma lobotomia.

Cheguei à conclusão de que um tipo não pode ser prendado e estudante ao mesmo tempo. É uma contradição nos termos, não é assim que se diz?

Não ó Fátima, isto hoje não está mau.

Ah, mas logo vêm cá deixar o trabalho e querem tudo pronto para quarta-feira e eu já estou a ver as horas a que vou sair daqui, tu estás a compreender?

São quatro, ò Fátima. E eles nem sabem se trazem tudo pronto. E eu sei pra que horas é que isto vai dar.

E tu também, ò Fátima, que tu é que lhes vais levar tudo pronto.

É sempre assim, trazem as coisas à última e depois eu fico cá até sabe-se lá quando.

- Só um momento, faz favor

E se eles vierem só às seis estás a ver como é, é sempre assim, mas tu sabes que eu sou assim. Tu estás a compreender?

Não é como a Alice que chega às seis e põe-se a andar. Tu estás a compreender?

- Diga lá

Acho que é a minha especialidade: arroz com-o-que-quer-que-haja-em-12 minutos. Houve tempos em que eu achei que devia abrir um restaurante de arrozes. Depois percebi que a coisa me ia deixar ansioso.

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